Vendo a vida passar

À escrivaninha.  28 º lá fora. O céu permanece nublado, esbranquiçado. Parou de chover. O sol primaveril apareceu, sobre o céu encoberto.

No grupo de mulheres de que participo, discutíamos sobre envelhecimento saudável. Uma amiga querida citou-me como um exemplo de envelhecer com ternura e naturalidade. Refleti sobre isto e constatei que não tenho problemas típicos da “velhice” ainda, e senti-me grata por isto.

Sinto-me saudável, fisicamente falando, para a minha idade. E, considerando minhas tragédias pessoais, ao longo dos anos, acredito que minha saúde mental não está tão arruinada, como pensei que ficaria. Aprendi, com a vida, a transformar tempestades diárias em paixão pela vida. Viver cada momento presente. O passado não posso mudar, e o futuro não me pertence.

Meu plano, atualmente, é não planejar nada. Organizo minha agenda, diariamente, para usar meu tempo do jeito que eu desejar. Ao fim do dia, revejo a lista de desejos e tarefas, para reavaliar o que eu julgava “precisar” fazer, e não fiz, e substituir pelo que me pareceu bom para mim. Quero guiar-me pelo o que meu coração me diz ser o certo para mim, e não em o que minha mente insiste em me dizer o que devo fazer. Quero relaxar e deixar a vida seguir seu curso.

Após os 60 anos de idade, ganhei uma perspectiva de como quero viver o resto da vida. Ainda tenho ideias e projetos girando em minha cabeça, mas nem sempre quero assumir o compromisso de colocá-los em prática.

Este ano de 2020 me fez parar e decidir o que é importante e o que pode ser descartado de meu cotidiano. Meu plano para o futuro é seguir o fluxo e deixar de lado minha necessidade de controlar cada detalhe!


E tem funcionado. Não é fácil abrir mão do controle, é um exercício e tanto, mas tenho avançado dia a dia. Tenho sido sábia o suficiente para discernir sobre o que funciona para mim e ir em frente. E é assim que eu quero viver minha vida. Sendo fiel a meus valores fundamentais, posso enfrentar o mundo com confiança e dizer “não” ao que não é bom para mim.

Está tudo bem não ter um plano e apenas seguir o que vem para mim. E também ficar quieta, às vezes, e não me incomodar em ser vista como ocupada ou produtiva para os outros. Não preciso mais disso. Aprendi a usar o “poder” de invisibilidade da idade a meu favor e a desfrutar da liberdade que ele me traz. 

Há alguns dias, ofereceram-me um trabalho para dar aulas particulares. Declinei. Estou vivendo a aposentadoria exatamente como quero. Autonomia, liberdade, alegria de poder escolher o que fazer. E de não fazer o que me solicitam se não for bom para mim.

Gosto da ideia de ver o mundo passar em alguns dias e agarrar oportunidades em outros dias. No entanto, não quero mais trabalhar. Esses dias estão para trás e pretendo desfrutar meu tempo livre e viver em meus próprios termos daqui em diante.

A sabedoria adquirida, neste ano atípico, tem me ensinado a ouvir mais meu coração e deixar minha mente acompanhá-lo ao longo do dia! Passar o dia vendo a vida passar. Que maneira maravilhosa de se viver!

Imagem:  Andrea Piacquadio no Pexels