Vivendo em meu casulo

À escrivaninha. 32°C lá fora. Céu maravilhosamente azul com nuvenzinhas brancas. O sol brilha nesta deslumbrante tarde de primavera.

Acordo, todos os dias, esquecendo, por um segundo, o vírus. Imediatamente eu me lembro e agradeço pela vida. Neste momento, cerca de 1 ano e meio de pandemia, ainda estou encasulada.

São tempos difíceis e ninguém sabe, ainda, exatamente, aonde isso nos levará. Sinto-me constrangida por ter estado em nosso sofá confortável ​​com um livro para ler, várias plataformas de vídeos para assistir ao que desejar, notebook e smartphone para ler, escrever e jogar tranquilamente, enquanto parte do mundo lá fora continuava a se debater.

A vida é injusta, e eu, apesar de viver com as restrições da pandemia, tenho tanta coisa pelas quais agradecer. Ainda sigo sem compreender por que razões tenho sido poupada. Perdemos pessoas amigas e familiares para o vírus. Tenho uma rede de apoio em casa. Eu sou realmente afortunada e grata.

Estou imensamente grata por ter podido estar com minha família, durante o bloqueio. Tantas pessoas ficaram meses sem poder estar com seus familiares. Sou grata porque estou saudável e tenho a sorte de morar com minhas meninas. Sou grata porque elas tiveram estrutura e condiçoes de trabalhar e estudar online. Sou grata pois não precisei me preocupar com idas a supermercado e afins, quando saídas não eram recomendadas.



Quando começo a me preocupar com quanto tempo a pandemia vai durar, penso que só posso viver o “agora” e deixar o amanhã cuidar de si. As coisas mudam rapidamente e eu permaneço em meu casulo o máximo possível.


Atualmente, ainda estou protegida em minha casa, embora preocupada porque a filha sai para trabalhar todos os dias. Minha neta ainda estuda online, em aulas virtuais. Mas a filha trabalha com crianças e adultos o dia inteiro. Tento não pensar tanto nos riscos e apenas agradeço, dia após dia, pelos livramentos para ela e para nós. Somos afortunadas. Até o momento.


Estou consciente de que tenho sido afortunada, mas estou bem preocupada com o trabalhadores comuns, com os trabalhadores da saúde, com os professores, com todas as pessoas que estão expostas obrigatoriamente, todos os dias.

Penso que a minha parte é diminuir o risco de contágio e propagação da doença, enquanto o esquema vacinal não estiver concluído. Minhas saídas foram exclusivamente para ver papai e ir a consultas médicas e odontológicas de emergência.

Apenas agradeço, oro e sigo encasulada, até estar pronta para romper o casulo e liberar minhas asas. Talvez eu me atreva a caminhar com a minha neta, ao ar livre…

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