Diário de escrita I

À escrivaninha. 19°C lá fora. Noite fria de inverno no Rio. Tenho usado bastante o poncho de lã que ganhei de minha amiga para me aquecer. Mas ainda prefiro o calor do sol…

Mencionei algumas vezes o projeto de escrever um romance, a fim de realizar um sonho antigo que já julgava impossível. Em meu diário de campo, tenho avaliado o que está sendo elaborado e como o trabalho é afetado pelas circunstâncias. Resolvi compartilhar, aqui no blog, como meus estados de espírito e sentimentos em relação ao texto interferem no processo criativo.

Embora tenha trabalhado com Literatura a vida toda, nunca escrevi um romance antes. Uma coisa é estudar as obras literárias. Escrevê-las é algo totalmente diferente. Requer, além de um certo talento — ainda não descobri se o tenho —, uma dose extraordinária de trabalho e dedicação.

Sendo assim, ingressei em uma jornada de estudo e pesquisa sobre a arte de escrever e sobre as técnicas de escrita de romances. Fiz alguns cursos e, ao final da primeira etapa— o planejamento do livro —, eu tinha uma ideia esboçada do que desejava construir. Nunca imaginei o quanto seria difícil começar a escrever efetivamente. O início foi a pedra em meu sapato.

Orientada e motivada pela consultora literária que analisou a estrutura de meu romance, iniciei a fase de escrita das cenas planejadas. Naturalmente, uma enorme tensão se instaurou em minha mente. “Agora é para valer”, dizia ela. Esforçando-me para ignorar estresses externos, concentrei-me na tarefa, orgulhosa por começar a escrita propriamente dita.

O primeiro mês de escrita diária e ininterrupta revelou minha insegurança e incapacidade de desenvolver as cenas planejadas. Era difícil controlar a ansiedade para editá-las a todo momento, resquícios de professora, imagino, mas desafiava-me a escrever até o fim. Hoje avalio que teria terminado o primeiro rascunho há mais tempo, se não voltasse tantas vezes ao texto para corrigi-lo, interrompendo, assim, o fluxo criativo.

Relutava em mostrar as falhas de minha personagem principal. Só desejava revelar suas virtudes. Mantive, entretanto, a mente aberta a aprender e aplicar o que fosse adequado ao texto. Inspirando-me nos romances que já li e estava lendo, tornei me mais receptiva a mostrar os detalhes que fazem as cenas mais “visíveis” ao leitor. Dessa maneira, dediquei-me a criar “pessoas” de verdade, humanas, críveis, dentro do universo que imaginei.

Exercitar a capacidade de síntese e enxugar o texto foi outro desafio a que me propus. Vencer a prolixidade, a redundância, a vontade de dizer de novo e de enfatizar algo matava meu texto. Isso vai subestimar a inteligência de meu leitor, eu pensava. Ele é capaz de fazer deduções e completar lacunas.

Quando me senti relativamente satisfeita com o rumo que o meu processo de produção estava tomando, e com o modo como as ideias iam fluindo naturalmente, enviei o primeiro capítulo a uma amiga. Tivemos uma longa e produtiva conversa sobre a premissa de meu romance. Minha mente abriu-se para novos ângulos e novas possibilidades. Voltei ao texto e o reescrevi de acordo com as considerações que nossa conversa suscitou.

Durante a escrita efetiva, eu estava aprendendo e me surpreendendo com as possibilidades de construção da história. Esforçava-me para pesquisar mais sobre o tema e tornar o texto mais verossímil. Criava diálogos melhores e cenas mais interessantes, a partir da observação e consequente inspiração das leituras e dos filmes de mesmo gênero e temática.

Surpresa com a minha capacidade de produzir uma história, em um dado momento, percebi-me apressada para avançar na narrativa. Mais adiante, senti-me incapaz de criar novas situações interessantes e fugir do trivial. Com preguiça e desmotivada, mas decidida a continuar, permaneci determinada a escrever. Comprometida com a trama e sem pretensões, apenas, apreciando o momento.

Ao final do primeiro mês de escrita, encontrava-me mais atenta para que as palavras transmitissem conceitos e ideias que trouxessem alguma transformação. Desafiando-me a a escrever até terminar, perseverei no avanço dos capítulos. Disposta a trabalhar para tornar meu sonho realidade, intensifiquei a tarefa com estudo e dedicação, beneficiando-me da pesquisa para enriquecer o texto.

Surpresa com as novas ideias que apareciam, à medida que eu escrevia, vi-me afobada para escrever e me policiando para não voltar e editar. Os capítulos ficaram mais curtos e enxutos. Eles só precisavam de substância.

Estimulada pela primeira avaliação positiva de minha nova mentora, concentrei-me na vibração do aprendizado e das descobertas. “Você tem potencial para escrever um romance, ela me disse”. Havia escrito apenas cinco capítulos. Nesse início, ainda buscava apenas prazer na escrita, sem preocupações de publicar. Sequer cogitava isso.

Animada, entrei no segundo mês de construção da minha história, meio convencida de que talvez eu pudesse mesmo publicar um romance. Será? Mas isto é assunto para o próximo post…

Vem comigo?

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