E não vejo mais o mar…

À escrivaninha. 20ºC lá fora. É tarde e chove. Janelas fechadas e um pouco de frio. Sim, isso mesmo, cariocas não gostam de dias nublados e chuvosos.

Durante anos, guiei meu carro todas as manhãs a caminho do trabalho. Grande parte do percurso era pela orla das praias do Rio. Eu abria a janela do carro e observava o mar. Em dias estressantes, isso acalmava meu coração. Dirigia em silêncio, ou cantava em voz alta uma música.

Pelo menos por alguns minutos, eu me imaginava na praia, estendida em uma canga a ler um romance. Essas pequenas pausas eram como água para minha alma sedenta.

Mas eu não estacionava. Permanecia engarrafada na estrada à beira-mar, em pleno êxtase. Uma buzina marcava a extinção daquele momento de relaxamento e conexão com a natureza.

Não dirijo mais, todas as manhãs, nem fico mais presa no engarrafamento a olhar o mar através da janela do meu carro. Ainda tento encontrar o equilíbrio de como viver sem aquele ritual matutino. O máximo que consigo é acordar com o canto dos passarinhos através da janela de meu apartamento.

Às vezes, fico cantando junto com a minha lista Spotify. De olhos fechados, finjo que estou no meu carro com as janelas abertas para o mar.

Talvez ainda seja possível relaxar diante do mar. Todos os dias, se eu quisesse. O tempo que eu desejasse.
Em vez disso, decidi assumir compromissos matutinos.

E não vejo mais o mar…


Este post participa do #Literoutubro, cuja proposta é escrever um texto sob o tema disutópicos, a fim de explorar ideias de sociedades perfeitas ou falhas, e as tensões entre o desejo de utopia e a realidade de distopias. O tema de hoje: EXTINÇÃO.






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