O veredito de junho

À escrivaninha. Faz 19 graus lá fora e o céu encoberto promete chuva mais tarde. A sensação térmica insiste no frio carioca, enquanto o gelado mundo europeu arde em calor. Minhas pantufas com cara de monstrinhos, herdadas de minha Princesinha, lutam, em vão, para esquentar meus pés.

Com as janelas trancadas e o café ao lado, abri meu caderno de registros diários. Passei horas na famigerada revisão de junho, mês em que completei 69 anos, e precisei encarar o veredito das anotações.

O que deu certo e as lições do mês

Nas quatro divisões da página, o primeiro quadrante ficou quase vazio. Listei poucos, mas significativos momentos, no espaço reservado ao que foi bem e deu muito certo:

  • A comemoração dos sessenta e nove anos ao lado de minhas meninas, hospedada em uma cidadezinha pitoresca, nas montanhas, meu sonho antigo. (veja a foto do nascer do Sol, em Cordeiro)
  • A produtividade desenfreada na escrita permitiu concluir o manuscrito do novo romance, mesmo sem ter certeza de que está satisfatório, e enviá-lo a leitores específicos.
  • Os períodos, muitas vezes involuntários, de recolhimento e silêncio revelaram-se momentos de abrigo e renovação mental e física.

Logo ao lado, o campo das lições para a vida também ficou curtinho. Apenas três aprendizados: apreciar o silêncio, como se disso dependesse a minha saúde mental, respeitar limites alheios e, acima de tudo, evitar me moldar às expectativas externas.

Promessas futuras e velhos desafios

Em compensação, a metade de baixo, onde anotei as intenções para o presente, veio extensa. Trata-se de uma relação desafiadora de promessas que insistem em me convencer de que sou uma criatura perfeitamente equilibrada, embora nem tenha certeza de que sou capaz de cumpri-las.

Para os próximos meses, meus objetivos parecem bem definidos:

  • Concluir a preparação do segundo romance, um compromisso adiado desde 2023.
  • Seguir me esforçando em estar apenas presente para as meninas, sem omitir opiniões não solicitadas
  • Recolher-me, sem culpa, quando minha mente e meu corpo exigirem descanso.
  • Continuar contendo a impetuosidade de querer agradar todo mundo (dizer “não” é uma bênção, experimentem).
  • Buscar autonomia para mim e para quem convive comigo, o que é sempre se transforma em uma tarefa árdua.

Na seção que diz respeito ao que deixo para trás, despeço-me da culpa por me poupar do trabalho e por procrastinar, bem como de atitudes de autossabotagem com a saúde. Também abro mão do hábito (pelo menos, quero me esforçar) de monitorar e controlar tudo ao meu redor, permitindo-me baixar a guarda e aceitar afetos e cuidados, sem ser uma idosa (a Princesinha me chama assim) rabugenta ou antissocial.

O teste da incoerência

Enquanto eu encarava o caderno, o celular vibrou com uma mensagem da minha filha sugerindo um passeio a um lugar que é um verdadeiro refúgio, em contato com a natureza. A data coincide com o encontro de um clube do livro do qual eu fazia questão de participar.

E o que esta defensora do isolamento fez? Respondeu um “Sim!” imediato, com ponto de exclamação.

Digamos que foi o primeiro teste à minha intenção de recolhimento. Bastou um aceno de aproximação para a incoerência vencer. Resta saber como vou resistir à experiência de passar um dia inteirinho em um sítio, rodeada de pessoas estranhas…

Julho começa com o espaço reposicionado, as janelas trancadas e o balanço do passado devidamente organizado. Espero que o peso do que me fez bem supere tudo o que eu venha a precisar deixar para trás.

E por aí, como ficou o balanço do seu último mês? O que você escolhe deixar para trás e começar o novo ciclo com mais propósito?

  • Foto do nascer do Sol, em Cordeiro, no dia do meu aniversário.

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