À escrivaninha. 27°C lá fora. A chuva bate forte na janela. Papai partiu na terça-feira passada. Mamãe já havia ido antes, há 11 anos. Agora sinto-me uma órfã completa.
Gargalhadas no sofá
Papai gostava de conversar. Contava histórias do trabalho na Marinha, das viagens pelo mundo, a memória boa.
Já não se locomovia sozinho. Precisava de cuidadores para ajudar no banho, na cama, nas refeições.
Mas isso não o impedia de tagarelar. Sentado no sofá da sala, onde passava a maior parte do dia, imitava o “kkkk” dos textos das redes sociais, na hora em que tirávamos uma selfie.
Dizia que não era proibido sorrir lá em casa. A gente rolava de rir. O corpo pedia descanso, mas a alma dava cambalhotas.
Mãos apertadas
As duas semanas internado foram dias de visitas curtas. Nos início, falava pouco ou quase nada. Depois, já não abria os olhos, apenas apertava a nossa mão quando a segurávamos.
O médico avisou que era grave, que talvez precisasse de entubação. Não concordamos. Ele resistiu, com o oxigênio no nariz, pelo tempo que ainda tinha.
Por isso, quando meu irmão e meu sobrinho, o cuidador de papai por tantos anos, receberam o informe do médico, no hospital, não houve surpresa. Era um desfecho esperado.
Não houve visita. Não chegaram a tempo. Sozinho. Sem despedida final.
Mesmo assim, fiquei aqui, à escrivaninha, olhando a chuva, depois de escutar o áudio com a notícia. Tem chovido a semana inteira. Segurei o telefone com força e ouvi de novo, de novo e de novo.
Só o silêncio depois da ligação.
Lembranças e saudade
Relembro a mão dele apertando a minha no leito do hospital. Também me recordo de mamãe, um dia antes de partir, pedindo que cantasse um hino para ela. Cantei.
Agora, sem os dois, a casa parece maior. Vazia deles, mas cheia das lembranças de ambos.
Não estou conformada, mas confortada. Concentro-me nos momentos felizes, exatamente como faço, desde que meu filho se foi também. Ouço suas gargalhadas alegres, vejo seus olhos brilhantes sorrindo para mim. E sorrio também.
Risadas eternas
O café esfriou. A chuva parou um pouco. Penso nas risadas, nos apertos de mão, nas histórias, nas cantorias.
Guardei uma camiseta de papai como lembrança. De mamãe, apenas um relógio que ele me entregou. De meu filho, a cruz prateada que carrego no pescoço.
Agora, resta-me escrever para registrar a saudade e o vazio.
Já tenho um Anjo no Céu que deve estar feliz em reencontrar os bisos. Quem passa pela perda de um filho e dos pais sabe: o dia segue, devagar.
Adeus, papai. Dê um beijo em mamãe e no meu Anjo por mim. Agora vocês podem encher o céu de gargalhadas por toda a Eternidade.