Este texto é um material complementar às discussões no Clube do Livro Milmarias.
À escrivaninha. 28°C lá fora. A luz suave entra pela janela, e o pensamento voa direto para a leitura de Milena Maria Testa. Essa escritora revela verdades em cada lembrança do passado, resiste como ninguém aos pesos da vida e mostra o invisível que move as relações.
Imagine uma mulher que, após décadas lidando com crimes e papéis falsificados, decide soltar a escrita que carregava desde menina. Milena é perita criminal aposentada e, nos 21 anos na área, percebia o lado psicológico das pessoas, das relações. Escrever sobre o dia a dia, observando o que está por trás de cada ação, foi inevitável.
Suas obras misturam autoficção, memórias fabuladas e fotos antigas. É o íntimo das relações, o que se conecta em rede por trás do cotidiano.
Milena veio de uma infância traumática: pobreza, fome e humilhações constantes. Ainda assim, superdotada, racional até não poder mais, tornou-se uma pessoa hiper-sensível a texturas, cheiros, calores de mãos que memoriza para sempre. Escreve à mão, intuitiva, sobre erotismo “fofo” com idosas, crimes passionais em gestação, sem vergonha da origem pobre que exibe sem pudor, dane-se o julgamento.
Filha do brasil
E como não falar de Filha do brasil, assim mesmo, com minúscula, o livro de Milena Testa que estou mediando no Clube do Livro Milmarias?
É autoficção pura, tecida com fotos “adivinhatórias” e fluxos de memória que constroem o que o cérebro não grava fielmente. Um espelho da vida, resistindo à violência familiar e política, despindo cicatrizes que ninguém vê.
Conheça Filha do brasil, desta mulher que se desdobra em milhares.
A sinopse é de arrepiar:

No Brasil convulsionante do período de 1964 a 1985, uma menina é concebida e cresce sendo atormentada pelo pai violento, espelho do sistema político em vigor. Mas ‘A menina de bruços sobre a máquina de costura aprende a esperar. Não pisca.’ Enquanto não realiza seu maior sonho, crime para alguns, ela se recusa a exercer o papel reservado às mulheres da família e encontra na educação uma oportunidade de romper com o ciclo de abusos e carências a que é submetida. São 21 anos de resistência, numa época em que ser mulher, nordestina e pobre era sinônimo de limitações quase insuperáveis. Neste romance de formação, a memória em fluxo revela imagens de cicatrizes que estão além de fotografias, diários, testemunhos e do paralelo com outras vidas tão semelhantes na dor quanto nos destinos para elas desenhado.
Ao decorrer da leitura, vou compartilhar impressões e informações sobre a obra e os temas que ele abriga. Vamos trocar ideias sobre esse livro no grupo de whatsapp do Clube.
Milena Maria: milmarias
Milena Maria Testa é alagoana, mãe, ex-perita criminal e pós-graduada em Literatura. Escreve desde criança, divulgando nas redes sociais a partir de 2019, quando foi premiada pela Academia Alagoana de Letras. Publica em coletâneas e sites, é consultora da revista literária “Contos de Samsara” e membro do coletivo Escreviventes.
Sua obra eclética trata das vivências cotidianas como processo de humanização, indo do lírico ao realismo mágico.
Em 2022, lançou o livro de contos “Cúmplices Insones de Noites Insanas”; em 2023, o cordel “O Coronel e o Mensageiro do Coronavírus”. Coordena o projeto de um romance coletivo sobre maternidade e está escrevendo um livro de poemas ilustrados em diálogo com a obra de Lêdo Ivo, um romance de formação confessional e um romance de gênero psicológico
Formada em arquitetura e direito e com seis pós-graduações, uma delas em Letras, Milena foi alfabetizada pela própria mãe e se apaixonou pela escrita ainda criança, quando tinha apenas oito anos de idade. Desde então, ela vem se dedicando, ao longo da vida, às suas obras literárias, sendo premiada diversas vezes.
Quando publiquei “Sob a Pele de Maria”, pela @editorapatua , senti certo alívio. Havia conseguido falar sobre episódios delicados de uma vida inteira. Entretanto, faltava alguma coisa. Por muito tempo senti frustração em não saber lidar com o período mais traumático da minha vida: da pré-adolescência ao inicio da juventude. Era quase impossível lembrar.
O concurso “Carolina Maria de Jesus”, de 2023, voltado para autoria de mulheres, foi o chamado. Em poucos dias escrevi, como num transe, a versão que foi homologada no certame. Feliz com o êxito, retomei o original, reeditei e o submeti a novas leituras críticas. Em 2025, decidi publicar o e-book na Amazon. Na bienal do livro de Alagoas, lancei a versão impressa, com a tiragem sendo esgotada durante o evento.
Cada pessoa que lê e comenta comigo sobre a identificação com Filha faz crescer a certeza de que devo continuar a divulgar essa história que vai muito além da sobrevivência da menina da máquina de costura da foto. Falo de aprender a viver apesar do trauma. A menina cresceu e não vai mais esperar. Ela mesma constrói seu caminho.
Milena Maria Testa, no Instagram @milmarias.escritora.
Para Milena, escrever é dupla chama: autoconhecimento para escavar traumas e acolher leitores que passam pelo mesmo. Resiste ao etarismo, usa tecnologia com paciência curta, recusa IA por ecologia e medo de roubar a criatividade. Frequenta oficinas de poesia, eventos como a Bienal, e vê a maturidade como voz livre:
FILHA DO bRASIL nasceu da necessidade de contar uma história pessoal que pode ser como a sua. Para descobrir, leia a obra e tire suas próprias conclusões.
Vamos prosseguir a leitura e, na próxima semana, volto com mais um guia sobre esta obra racional e indomável, como as milmarias que a escreveram.
Dane-se o mundo, eu tenho histórias pra contar. — Milena Testa