À escrivaninha. 27 °C lá fora. O céu encoberto prevê tempestades para os próximos dias. Tarde boa para um brainstorm no novo projeto de escrita.
Tenho me desfiado em uma novela distópica, algo novo para mim como escritora. Toda semana participo de um grupo de prática de escrita orientado pela querida Ana Rüsche. Cada sessão tem vários blocos de escrita, de 35 minutos, sem parar. Cinco minutos de intervalo para esticar a coluna e beber água. Outro bloco, até o fim da sessão. Conto aqui como esta experiência tem moldado o meu fazer literário. Soou um pouco presunçoso, não é?
Em uma dessas manhãs, a tarefa foi escrever sem parar e sem pensar muito. Meu capítulo novo nasceu em quinze minutos, sem pesquisa e sem pausa. Saiu torto. Depois, com a escaleta aberta, consegui colocá-lo de pé. Ou quase. Aprendi mais sobre o meu jeito de escrever nesse dia do que em muita leitura sobre o assunto.
A regra das duas folhas
Enquanto escrevo, não paro. O que aparece no caminho ganha um destino. O que pertence ao texto fica no arquivo único, cuja última versão é sempre a principal. Anoto tudo dentro dele: uma pesquisa por fazer, uma revisão, uma edição. Marco com colchetes, uso palavras em caixa alta, destaco em vermelho. O comando Ctrl + F me levará até cada marca na hora de fazer ajustes.
O que pertence à vida fica fora, numa folha solta.
O telefone que toca com a ligação que precisa ser retornada. A vontade de espiar as redes sociais. A conta a pagar prestes a vencer. O e-mail que espera resposta. A notinha dá a sensação de alívio momentâneo. A tarefa na lista, anoto, às pressas na folha solta, e volto imediatamente à frase em que parei.
Em uma outra manhã, a orientação mudou. Eu poderia escolher entre escrever, pesquisar ou editar. Nesta, reli o capítulo 1 e deixei entre colchetes tudo o que ainda precisava pesquisar. O resultado foi uma lista de tópicos com elementos que mantêm o texto coeso e fazem minha distopia funcionar:
- a Vigilância – como atua uma corporação que domina o mundo
- o bunker urbano – como é o cenário que abriga a protagonista
- os dispositivos – como funcionam em um mundo sem internet
Talvez você queira saber mais da história, da protagonista, do que ela faz dentro daquele bunker, acertei? Mas isto vai ficar para um outro post. Talvez mais para a frente, em minha newsletter, onde compartilho o processo de escrita dos meus livros. Segura a curiosidade aí.
No bloco final desta sessão, editei o rascunho do capítulo 2. Para ele caber, mexi no desfecho do 1. Fechei a manhã organizando o que iria fazer na semana seguinte.
Em uma outra sessão descobri que posso escolher estruturar ou intuir na hora de planejar a escrita. Eu sempre me incluí na primeira estratégia. Gosto de montar escaleta, gosto de planejar cena por cena. Voltei ao segundo capítulo e me ocupei com as pesquisas que tinham ficado entre colchetes. A Ana Rüsche sugeriu mapas mentais ou escaletas, então, montei a dos ajustes. Num bloco de 40 minutos, separei trechos com notas pesquisadas para o mundo da história, o cenário do bunker e, agora, também, o do laboratório da corporação.
Na sessão da semana passada, o modo improvisador encontrou o planejador. Escrevi o rascunho do capítulo 3 em pouco mais de quinze minutos, sem pesquisar, sem parar. Depois o reli, com a escaleta aberta, observei a coesão e a estrutura e consertei as falhas dentro do próprio rascunho. Mais um bloco, uma pausa, e a sessão terminou com escrita planejada. Anotei em uma lista, dentro do mesmo arquivo, o que cabe ao capítulo seguinte.
O que ficou
Enquanto aguardo a próxima sessão de escrita, tenho trabalhado todos os dias no rascunho de minha novela. Sigo com a versão planejadora. É nela que me incluo. Percebi que também posso me permitir deixar a intuição fluir enquanto escrevo. E que escrever é decidir o que fica de fora da página.
Foto de Markus Spiske na Unsplash