A literatura me ensinou a esperar, mas também a ir embora.

À escrivaninha. 23 ºC lá fora e céu nublado. O vento balança a janela de vidro e levanta as cortinas rendadas. Ontem, eu venci o relógio em uma sala de espera, em pleno prazer do texto.

Enquanto a médica não chegava, o ponteiro da clínica de alergia dava duas voltas inúteis. Neste intervalo, passei por quase cem páginas de contos sobre casos amorosos, lembranças, segredos e coisas esquecidas.

Vou encostar meu ouvido aqui no teu peito, pode? Assim escuto teu coração, a gente vai respirando no mesmo ritmo com esse cheirinho de castanha do Pará, tem coisa melhor que isso? Boa noite, Maurício. — Ana Amelia Coelho, em Nodo-Kara te-ga deru.

Sabe uma vontade incontrolável, um desejo forte? Esse é o sentido da expressão do título do livro que li. Significa “uma mão sai da minha boca”. Saí do consultório com a receita na mão e a sensação de ter roubado duas horas de vida para mim.

Hoje, o feitiço se desfez.

Passei pela porta de vidro da sala de exames lotada. Com a senha de atendimento em mãos, abri um livro de poemas. Era “o remédio ideal contra o tédio, a chatice e a pasmaceira”, dizia a orelha. Entre uma página e outra, sob os gritos da criança com a agulha perfurando a veia, e o sistema da recepção lento, eu consultava o pulso.

Olhando ao redor, via o desespero de quem só tem as redes sociais para passar o tempo, enquanto eu estava protegida por alguém que transformava o tédio em poesia. Quando fechei a capa cor de manteiga, o silêncio do último verso gritou comigo:

Do pesar, das amarras do cansaço, das traves, tudo que vier é lucro e sei que é preciso respirar a busca da manhã. — Rodolfo Coelho, em O diário de um chato.

Na recepção, quase duas horas depois, meu nome sequer constava em alguma ficha não feita. Guardei o livro na bolsa, levantei e fui embora sem olhar para trás. Cruzei a porta daquele laboratório com mais um livro terminado e um exame a menos, mas com a minha dignidade (quase) intacta.

A literatura me ensinou a arte de esperar, é verdade, mas também me fez perceber quando esta vira desrespeito. Algumas demoras nem o melhor dos poemas consegue justificar.

Foto de Monstera Production no Pexels

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