À escrivaninha. 20 °C lá fora. O céu empurrou o sol para trás das nuvens carregadas. Imagino um lugar em que eu não precise ser outra coisa, a não ser exatamente quem sou. Um espaço completamente meu. Este lugar existe. É aqui, em frente à janela, essa fronteira entre dois universos: o lado de dentro e o lado de fora.
Janelas costumam ser de onde se assiste ao mundo, embora, daqui, minha vista privilegiada seja o prédio em frente e roupas penduradas nas varandas. Todas as manhãs, com uma xícara de café e a luz do dia perfurando a renda branca da cortina, insisto em enxergar além das janelas fechadas. Capturo momentos prestando atenção no que acontece ao redor e dentro de mim. Permaneço neste instante capturado.
E, então, escrevo.
Por amar ler romances, procuro criar histórias com protagonistas maduras. Quero que mulheres como eu se reconheçam nelas e saibam do valor que têm. E, acima de tudo, que nunca se esqueçam dele. Minhas heroínas não se resumem a dores nas costas nem apenas a crochês em cadeira de balanço. Para isso, venho construindo, pouco a pouco, uma voz própria, com um jeito único de expressar minhas ideias. Algumas pessoas chamam isso de estilo. Eu considero um instinto afiado que me conecta a pessoas que partilham as mesmas causas e se envolvem em questionamentos semelhantes.
Quando leio sobre a impetuosidade de Elizabeth Bennet, a heroína de Jane Austen em Orgulho e Preconceito, ou a força de Claire Beauchamp, em Outlander, da Diana Gabaldon, identifico-me com seus anseios e paixões. Da mesma forma, sem querer me comparar com estes gênios (imagina, eu, uma simples aprendiz), envolvo minhas personagens em uma aura de sonho, romantismo e delicadeza, ao mesmo tempo em que as coloco à frente de seu tempo, sem se deixarem conter diante de empecilhos sociais ou biológicos.
Influenciada por elas, optei por retratar mulheres que lutam pelo que acreditam e buscam formas de realizar seus sonhos. E conseguem! Apesar dos obstáculos que a sociedade tenta nos empurrar goela abaixo, como: Você não pode mais. Já passou da idade. Deixa isso para as mais jovens, são mulheres modernas, decididas, obstinadas, livres e apaixonadas.
O tom da chuva
Os respingos na vidraça da janela e as nuvens carregadas atrás do prédio em frente formam o cenário perfeito para uma pausa dramática. Medito no caminho percorrido para encontrar meu tom na escrita e nas razões pelas quais escrevo romances. Percebo que quero ser uma escritora que naturaliza a presença da mulher de meia idade em todos os espaços, do profissional ao afetivo e onde mais ela bem entender. E como me incomoda que ainda queiram nos aposentar antes do tempo em lugares onde deveríamos continuar reinando.
Então pensei: como expressar essa voz em histórias com um tema tão urgente, mantendo o tom delicado e envolvente, sem parecer que carrego bandeiras, como bem sinaliza a inigualável Adélia Prado em sua Licença poética? A resposta vem com a criação de personagens que retratam mulheres com as quais me identifico: mulheres que desejei ser um dia, mulheres que procurei ser ao longo dos anos, mulheres que ainda posso ser se eu quiser. Protagonistas transpondo a barreira do preconceito e do apagamento. Mulheres que simplesmente podem e são.
Fecho a janela e procuro um agasalho. Esfriou aqui dentro. De repente, quase esqueci: sou apenas uma aprendiz de escritora. Mas, devagar, eu chego lá. Vou preparar mais um café. E escrever em frente à vidraça.
Foto de Christopher Jolly na Unsplash