“Essa cruz me dá a maior sorte, mãe!”
À escrivaninha. 31 °C lá fora. Céu azul manchado de nuvenzinhas discretas. Há 20 anos, tenho um Anjo. Lágrimas apertadas dentro do peito, que nunca se mostram.
Raramente sonho com ele. Sempre aparece criança. Quando acontece, ouço sua voz e o abraço. Acordo triste, mas feliz, porque sei que, acima das estrelas, ele me sorri.
Durante muito tempo, usei preto. Hoje, carrego a cruz de ouro branco que dei para ele e que encontrei caída no quarto. “Essa cruz me dá a maior sorte, mãe”, me disse um dia. Mas não estava com ela quando saiu para nunca mais voltar…
São apenas cores ou objetos, dizem. Entretanto, são formas de manter viva a lembrança de sua vida e de honrar sua memória. De mantê-lo sempre perto de mim.
A alma dói.
Há dias em que sou forte e ninguém imagina o que há dentro da rocha em que me transformei. Minha filha e a nossa linda Princesinha não suprem a ausência do meu menino. Cada filho é único. Insubstituível. Mas me dão ânimo para lutar e querer viver. Sobre(viver).
Dentro de mim, a dor da perda é eterna. O amor nunca morre e ela nunca passa. É como se acordasse de novo, todo dia, com a notícia que dividiu a vida em antes e depois. Uma mutilação. Uma parte do coração arrancada que não sara nunca. Vinte anos de lágrimas contidas. Basta uma música, uma roupa, um perfume, uma frase, uma situação para me lembrar de que ele está aqui, comigo, o tempo todo.
A lembrança do sorriso, imagem para sempre gravada no coração, mantém acesa a esperança de reencontrá-lo um dia (creio na ressurreição). Enquanto isso, olho as estrelas e sorrio. Sim, eu tenho um anjo que me guarda lá de cima. Hoje é o aniversário de sua partida. E eu tenho a graça de ser mãe de um anjo…
Parabéns pra você,
Nesta data, querido…
